Saltar para o conteúdo

Arrendamento Comercial: Prazos e Renovação


Arrendamento Comercial: Prazos e Renovação

No arrendamento para fins não habitacionais — lojas, escritórios, armazéns, consultórios —, a lei dá às partes muito mais liberdade do que na habitação: nos termos do artigo 1110.º, n.º 1, do Código Civil, as regras de duração, denúncia e oposição à renovação «são livremente estabelecidas pelas partes».

Mas essa liberdade tem três travões que apanham muitos senhorios de surpresa: na falta de estipulação o contrato vale por cinco anos; nos cinco primeiros anos o senhorio não pode opor-se à renovação, seja qual for o prazo escrito no contrato; e a denúncia só é possível em dois fundamentos, com indemnização ao arrendatário e aos trabalhadores. Se arrenda espaço comercial em Portugal, este é o artigo que devia ler antes de assinar o próximo contrato.

O essencial em 30 segundos

  • No silêncio do contrato: prazo certo de 5 anos e denúncia pelo arrendatário com pré-aviso mínimo de 1 ano (art. 1110.º, n.º 2).
  • A renovação supletiva é por períodos iguais — ou de 5 anos se o prazo for inferior (n.º 3).
  • Nos 5 primeiros anos o senhorio não pode opor-se à renovação, independentemente do prazo estipulado (n.º 4).
  • A denúncia pelo senhorio só cabe nas alíneas b) e c) do art. 1101.º e obriga a indemnizar o arrendatário e os trabalhadores (art. 1110.º-A).

O que conta como arrendamento não habitacional

O artigo 1067.º, n.º 1, do Código Civil divide o arrendamento urbano em dois: fim habitacional ou não habitacional. Quando o contrato nada diga, o n.º 2 manda olhar para as aptidões do local «tal como resultem da licença de utilização». E o n.º 3 resolve a falta de licença: «o arrendamento vale como habitacional se o local for habitável ou como não habitacional se o não for, salvo se outro destino lhe tiver vindo a ser dado».

O artigo 1108.º delimita o âmbito das regras especiais: aplicam-se «aos arrendamentos urbanos para fins não habitacionais, bem como, com as necessárias adaptações e em conjunto com o regime geral da locação civil, aos arrendamentos rústicos não sujeitos a regimes especiais».

Dois casos de fronteira merecem cláusula expressa no contrato:

  • Fim não definido — o artigo 1027.º permite ao arrendatário aplicar o locado «a quaisquer fins lícitos, dentro da função normal das coisas de igual natureza» quando o fim não resulte do contrato nem das circunstâncias. Não escrever o fim é abdicar de o controlar.
  • Pluralidade de fins — o artigo 1028.º manda aplicar a cada fim o seu regime; havendo um fim principal e outros subordinados, «prevalecerá o regime correspondente ao fim principal».
  • Arrendamentos mistos (parte urbana e parte rústica) — o artigo 1066.º define os critérios; na dúvida, o arrendamento tem-se por urbano.

Duração e renovação: o que a lei aplica se o contrato calar

Questão Regime supletivo Base legal
Tipo e prazo do contrato Prazo certo, 5 anos Art. 1110.º, n.º 2, CC
Pré-aviso mínimo de denúncia pelo arrendatário Não inferior a 1 ano Art. 1110.º, n.º 2, CC
Renovação automática no termo Por períodos sucessivos de igual duração, ou de 5 anos se a duração for inferior Art. 1110.º, n.º 3, CC
Oposição à renovação pelo senhorio nos primeiros 5 anos Proibida, independentemente do prazo estipulado Art. 1110.º, n.º 4, CC
Fundamentos de denúncia pelo senhorio Apenas as alíneas b) e c) do art. 1101.º Art. 1110.º-A, n.º 1, CC
Responsabilidade pelas obras Livre estipulação; no silêncio, conservação a cargo do senhorio Art. 1111.º, CC
Trespasse do estabelecimento Sem autorização do senhorio, mas por escrito e comunicado Art. 1112.º, n.os 1 e 3, CC
Morte do arrendatário O contrato não caduca Art. 1113.º, n.º 1, CC
Um contrato de dois anos renova-se por cinco. A renovação supletiva do n.º 3 do artigo 1110.º faz-se «por períodos sucessivos de igual duração ou de cinco anos se esta for inferior» (com ressalva do n.º 2 do art. 1096.º). Se pretende renovações curtas, tem de as escrever — a liberdade do n.º 1 existe precisamente para isso.

Os cinco anos em que o senhorio não manda

É a norma mais importante deste regime e a que gera mais conflitos: artigo 1110.º, n.º 4 — «Nos cinco primeiros anos após o início do contrato, independentemente do prazo estipulado, o senhorio não pode opor-se à renovação.»

Leia-se «independentemente do prazo estipulado». Assine um contrato de um ano, de dois ou de três: durante os primeiros cinco anos contados do início do contrato, a oposição à renovação está vedada ao senhorio. O arrendatário comercial tem, na prática, cinco anos de estabilidade garantida por lei.

Isto tem consequências muito concretas no planeamento de um investimento imobiliário. Se conta reabilitar o prédio, mudar o uso ou vender livre de ónus dentro de três anos, um arrendamento comercial assinado hoje não lho permite por esta via. Planeie o prazo em função do seu horizonte — e não do inverso.

Denúncia pelo senhorio: dois fundamentos e uma fatura

O artigo 1110.º-A, n.º 1, restringe fortemente a denúncia: «Nos contratos de arrendamento não habitacional, o senhorio apenas pode denunciar o contrato nos casos previstos nas alíneas b) e c) do artigo 1101.º» Ou seja:

  • Alínea b) do artigo 1101.º — «Para demolição ou realização de obras de remodelação ou restauro profundos que obriguem à desocupação do locado, desde que não resulte local com características equivalentes às do locado, onde seja possível a manutenção do arrendamento»;
  • Alínea c) do artigo 1101.º — «Mediante comunicação ao arrendatário com antecedência não inferior a cinco anos sobre a data em que pretenda a cessação».
Repare no que não está na lista. A alínea a) do artigo 1101.º — necessidade de habitação pelo próprio ou por descendentes em 1.º grau — não se aplica ao arrendamento não habitacional. Não pode denunciar uma loja invocando que precisa do espaço para si.

A indemnização

O n.º 2 do artigo 1110.º-A é o que torna esta via cara: a denúncia «obriga o senhorio a indemnizar separadamente o arrendatário e os trabalhadores do estabelecimento pelos prejuízos que, comprovadamente, resultem da cessação do contrato de arrendamento».

Duas modelações importantes:

  • N.º 3 — não há indemnização ao arrendatário «se o arrendamento tiver sido objeto de trespasse nos três anos anteriores»;
  • N.º 4 — no caso da alínea b) do artigo 1101.º, ao valor da indemnização devida ao arrendatário «é deduzido o valor da indemnização prevista na alínea a) do n.º 1 do artigo 6.º do regime jurídico das obras em prédios arrendados, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 157/2006, de 8 de agosto, na sua redação atual».

Antes de avançar por esta via, some tudo: indemnização ao arrendatário, indemnização aos trabalhadores e o custo do próprio projeto de obras. Para o panorama geral das vias de cessação, veja o guia de rescisão de contrato de arrendamento: prazos e regras.

Obras: aqui a liberdade é quase total

O artigo 1111.º, n.º 1, é claro: «As regras relativas à responsabilidade pela realização das obras de conservação ordinária ou extraordinária, requeridas por lei ou pelo fim do contrato, são livremente estabelecidas pelas partes.»

Só se as partes nada convencionarem entra o regime supletivo do n.º 2: «cabe ao senhorio executar as obras de conservação, considerando-se o arrendatário autorizado a realizar as obras exigidas por lei ou requeridas pelo fim do contrato».

Esta última parte merece atenção. No silêncio do contrato, o arrendatário comercial fica autorizado por lei a fazer as obras exigidas pelo fim do contrato — o que, num restaurante ou numa clínica, pode significar intervenções profundas. Se quer aprovar cada obra, escreva-o. E defina desde já o destino das benfeitorias no fim do contrato. Compare com o regime da habitação no nosso artigo sobre obras e manutenção no arrendamento: quem paga o quê.

Trespasse e locação de estabelecimento

Duas figuras próprias do comércio, ambas fora do seu poder de autorização — mas não fora do seu conhecimento.

Trespasse (artigo 1112.º)

É permitida a transmissão por ato entre vivos da posição do arrendatário, sem dependência da autorização do senhorio, no caso de trespasse de estabelecimento comercial ou industrial, ou a pessoa que continue a exercer no prédio a mesma profissão liberal (n.º 1). Mas o n.º 2 delimita: não há trespasse quando a transmissão não seja acompanhada da transferência conjunta «das instalações, utensílios, mercadorias ou outros elementos que integram o estabelecimento», nem quando vise o exercício de outro ramo de comércio ou indústria.

Os restantes números protegem o senhorio:

  • N.º 3 — a transmissão «deve ser celebrada por escrito e comunicada ao senhorio»;
  • N.º 4 — «O senhorio tem direito de preferência no trespasse por venda ou dação em cumprimento, salvo convenção em contrário»;
  • N.º 5 — se, depois da transmissão, for dado outro destino ao prédio ou o transmissário não continuar a mesma profissão liberal, «o senhorio pode resolver o contrato».

Locação de estabelecimento (artigo 1109.º)

É «a transferência temporária e onerosa do gozo de um prédio ou de parte dele, em conjunto com a exploração de um estabelecimento comercial ou industrial nele instalado» (n.º 1). O n.º 2 dispensa a autorização do senhorio, «mas deve ser-lhe comunicada no prazo de um mês».

Guarde estes prazos: um mês para a comunicação da locação de estabelecimento; forma escrita e comunicação ao senhorio para o trespasse — que lhe dá ainda direito de preferência se for por venda ou dação em cumprimento.

Habitação vs. não habitação: o quadro comparativo

Tema Habitação Não habitacional
Prazo no silêncio das partes 5 anos (art. 1094.º, n.º 3) 5 anos (art. 1110.º, n.º 2)
Limites de prazo Mínimo 1 ano, máximo 30 anos (art. 1095.º, n.º 2) Livremente estabelecido (art. 1110.º, n.º 1)
Renovação supletiva Períodos iguais ou 3 anos se inferior (art. 1096.º, n.º 1) Períodos iguais ou 5 anos se inferior (art. 1110.º, n.º 3)
Oposição à renovação pelo senhorio Pré-avisos de 240/120/60 dias ou um terço do prazo (art. 1097.º, n.º 1); a primeira oposição só produz efeitos decorridos 3 anos da celebração (n.º 3) Vedada nos 5 primeiros anos (art. 1110.º, n.º 4)
Denúncia pelo senhorio (duração indeterminada) Alíneas a), b) e c) do art. 1101.º Apenas alíneas b) e c) (art. 1110.º-A, n.º 1)
Indemnização por denúncia Regime dos arts. 1102.º e 1103.º Ao arrendatário e aos trabalhadores, separadamente (art. 1110.º-A, n.º 2)
Obras Regime do art. 1074.º Livre estipulação (art. 1111.º, n.º 1)
Transmissão inter vivos Regras próprias Trespasse sem autorização (art. 1112.º, n.º 1)
Morte do arrendatário Não caduca havendo transmissário (art. 1106.º) Não caduca; renúncia possível em 3 meses (art. 1113.º)

O que acontece quando o arrendatário de uma loja falece é tratado em detalhe no guia sobre a morte do arrendatário e a transmissão do contrato.

Checklist antes de assinar um arrendamento comercial

  • Escreva o fim do contrato com precisão. Sem ele, aplica-se o artigo 1027.º e o arrendatário escolhe dentro da função normal do espaço.
  • Confirme a licença de utilização e a sua compatibilidade com a atividade — é ela que o artigo 1067.º, n.º 2, manda considerar.
  • Defina o prazo e a renovação por escrito. No silêncio, são 5 anos com renovações de 5 anos (art. 1110.º, n.os 2 e 3).
  • Assuma os cinco anos do n.º 4. Não conte com a oposição à renovação antes disso, qualquer que seja o prazo contratado.
  • Regule as obras e as benfeitorias (art. 1111.º, n.º 1) — quem faz, quem aprova, quem paga, o que fica no fim.
  • Regule a atualização da renda e o momento em que se aplica; veja como funciona a atualização anual de rendas.
  • Preveja o trespasse. Não o pode proibir nos termos do artigo 1112.º, n.º 1, mas pode organizar a comunicação e acautelar a sua preferência do n.º 4.
  • Distribua encargos e despesas — incluindo os do condomínio, que num espaço comercial pesam mais.
  • Registe o contrato na AT dentro do prazo legal: guia passo a passo.

Perguntas frequentes

Qual é o prazo de um arrendamento comercial se o contrato nada disser?

Cinco anos, com prazo certo. O artigo 1110.º, n.º 2, do Código Civil determina que, «na falta de estipulação, o contrato considera-se celebrado com prazo certo, pelo período de cinco anos, não podendo o arrendatário denunciá-lo com antecedência inferior a um ano».

Posso opor-me à renovação de um arrendamento de loja ao fim de dois anos?

Não. O artigo 1110.º, n.º 4, é expresso: «Nos cinco primeiros anos após o início do contrato, independentemente do prazo estipulado, o senhorio não pode opor-se à renovação.» A proibição vale mesmo que o prazo contratado seja mais curto.

Em que casos posso denunciar um contrato comercial, e tenho de indemnizar?

Apenas nos casos das alíneas b) e c) do artigo 1101.º — demolição ou obras de remodelação ou restauro profundos que obriguem à desocupação, ou comunicação com pelo menos cinco anos de antecedência —, por força do artigo 1110.º-A, n.º 1. E sim: o n.º 2 obriga a indemnizar separadamente o arrendatário e os trabalhadores do estabelecimento pelos prejuízos comprovados, salvo a exceção do n.º 3 para trespasses ocorridos nos três anos anteriores.

O meu inquilino pode trespassar a loja sem a minha autorização?

Sim, nos termos do artigo 1112.º, n.º 1, quando haja verdadeiro trespasse de estabelecimento comercial ou industrial. Mas a transmissão deve ser celebrada por escrito e comunicada ao senhorio (n.º 3), o senhorio tem direito de preferência no trespasse por venda ou dação em cumprimento (n.º 4), e pode resolver o contrato se for dado outro destino ao prédio (n.º 5). Não há trespasse nos casos do n.º 2, designadamente quando não se transferem em conjunto as instalações, utensílios e mercadorias.

Quem paga as obras num arrendamento comercial?

Quem o contrato disser. O artigo 1111.º, n.º 1, deixa a matéria à livre estipulação das partes. Só na falta de convenção é que cabe ao senhorio executar as obras de conservação, considerando-se o arrendatário autorizado a realizar as obras exigidas por lei ou requeridas pelo fim do contrato (n.º 2).

A locação de estabelecimento tem de ser comunicada?

Sim. O artigo 1109.º, n.º 2, dispensa a autorização do senhorio, mas exige que a locação de estabelecimento lhe seja comunicada no prazo de um mês.

A liberdade contratual vale ouro — se a exercer

Ao contrário da habitação, aqui quase tudo o que escrever prevalece sobre a lei. O reverso é que tudo o que não escrever é decidido por um regime supletivo generoso para o arrendatário — cinco anos de prazo, cinco anos de renovação e cinco anos sem oposição. Comece por um contrato completo: pode gerar gratuitamente um contrato de arrendamento e acompanhar as alterações previstas no novo regime do arrendamento. Mais guias para senhorios no hub de artigos da Aluseg.

Contratos, prazos e renovações num só sítioNa app Aluseg, cada contrato guarda o prazo, a data de renovação e os pré-avisos, com alertas antes de cada marco. Para senhorios particulares, nos planos pagos, depois de ligar o Portal das Finanças uma vez, o registo na AT é comunicado e os recibos eletrónicos saem todos os meses; para sociedades, a Aluseg exporta os dados de faturação (CSV) para o seu programa certificado. Conta gratuita, sem cartão.Criar conta gratuita →

Este artigo tem fins meramente informativos e não constitui aconselhamento jurídico. O regime aplicável depende da data e do teor de cada contrato. Antes de celebrar, alterar ou fazer cessar um arrendamento comercial, consulte um advogado ou solicitador.

Partilhar este artigo :

Artigos relacionados